O último console de mesa da SEGA ficou marcado na história por motivos que vão muito além de suas vendas decepcionantes. A verdade nua e crua é que o Dreamcast não morreu por falta de jogo bom — muito pelo contrário. Em sua curtíssima vida útil, o aparelho entregou uma biblioteca absurdamente rica que misturava os medalhões da própria casa com um suporte pesadíssimo de desenvolvedoras parceiras.

Para entender o peso desse legado, é impossível não olhar primeiro para as obras que definiram o sistema e a própria indústria. Pega Shenmue, por exemplo. A SEGA AM2 entregou ali um dos projetos mais ambiciosos da época. A saga do jovem Ryo Hazuki pelas ruas de Yokosuka atrás de Lan Di, o assassino de seu pai, chutou a porta do que a gente entendia por imersão. Você explorava livremente, treinava artes marciais, trabalhava e vivia a rotina da cidade. Foi um salto de game design que ditou as regras dos jogos de mundo aberto por anos.

No campo dos RPGs, a SEGA AM3 nos deu Skies of Arcadia, uma jornada de fantasia irretocável. Acompanhar o jovem pirata Vyse e sua tripulação por ilhas flutuantes, caçando tesouros e batendo de frente com um império do mal, era a essência da aventura clássica. O sistema de combate estratégico casava perfeitamente com a trilha sonora marcante, criando um universo que até hoje deixa os fãs pedindo um retorno.

Já a Namco fez história com SoulCalibur. O título cravou um novo patamar para a pancadaria 3D com uma fluidez assustadora, gráficos impressionantes e lutadores armados com estilos altamente complexos. Era aquele tipo de jogo que exigia habilidade para dominar os combos, mas que sustentava qualquer encontro com os amigos no modo versus. Outra experiência puramente visceral era Crazy Taxi, da Hitmaker, um arcade frenético em que a única regra era ignorar as leis de trânsito para entregar passageiros a tempo, tudo embalado por um visual vibrante.

E se o papo é estética, Jet Set Radio corre numa pista própria. A Smilebit calçou patins na galera, aplicou aquele visual cel-shaded que envelheceu super bem e soltou os jogadores para grafitar Tóquio fugindo da polícia ao som de muito J-pop e hip-hop. É o exemplo perfeito de como o Dreamcast era um laboratório para ideias criativas.

Até nos gêneros mais consolidados o videogame mostrava força. A Capcom entregou um dos ápices do survival horror com Resident Evil Code: Veronica. A fuga de Claire Redfield de uma ilha infestada tinha uma atmosfera opressiva, quebra-cabeças difíceis e um salto gráfico para ambientes 3D que expandiu a lore da franquia com maestria. E para a galera do tiro, Quake III Arena, da id Software, provou o poder do multiplayer online em consoles de mesa, entregando um FPS rápido, de movimentação lisa e mapas cirúrgicos que deixava gente do mundo todo trocando tiro via modem.

O Lado B do Console: Aquilo que a História Quase Esqueceu

Acontece que a biblioteca do Dreamcast não era feita só de blockbusters absolutos e divisores de águas. Existe um submundo de títulos fantásticos que raramente aparecem nas listas de “Melhores de Todos os Tempos”, mas que têm uma magia muito própria. O problema é que muitos deles nunca viram a cor de um relançamento moderno, sumindo da nossa memória coletiva rápido demais.

Lembra que a SEGA ainda era uma máquina de fazer beat ‘em ups pro arcade no fim dos anos 90? Dynamite Cop (lançado nas máquinas em 98 e portado pro console em 99) é o puro suco dessa época. A premissa é aquela farofa maravilhosa: você e mais um amigo controlam heróis tentando salvar a filha do presidente de piratas modernos que tomaram um navio de cruzeiro. A jornada culmina numa treta final contra o vilão White Fang Hongo. Sendo um sucessor não-oficial do clássico Die Hard Arcade — trazendo de volta o protagonista Bruno Delinger —, o jogo joga o realismo pela janela e abraça o caos por não estar mais amarrado à licença de Duro de Matar. É curto, mas as várias rotas garantem o fator replay.

No lado oriental do mercado, a Capcom foi uma das parceiras mais prolíficas. Um dos ports mais obscuros que eles trouxeram dos fliperamas foi Tech Romancer (2000), um jogo de luta 3D focado em mechas. Com uma pegada escancarada de anime de robô gigante, a trama acompanha humanos defendendo a Terra de um invasor alienígena. A grande sacada aqui foi o foco narrativo, com campanhas de história próprias para cada boneco, sem perder a profundidade na hora da porrada. Ficou meio ofuscado por títulos como Rival Schools, mas o visual sci-fi clama por um remaster.

Ainda nos arcades da SEGA, tínhamos mecânicas clássicas migrando para moldes mais contemporâneos. Outtrigger (2001 no console) pegou a essência dos jogos de tiro e a transformou em um third-person shooter ágil, misturando armamento convencional com ficção científica. Você escolhia um dos quatro operadores para caçar terroristas, mas o que brilhava mesmo era o multiplayer competitivo: quatro pessoas dividindo a tela na sala ou seis se caçando na internet. Pode não ter o peso histórico de um Unreal Tournament, mas entregava uma carnificina muito gostosa de jogar.

E já que estamos escavando relíquias, é impossível não falar de Cannon Spike (2000), da Capcom. Esse aqui leva a coroa de jogo mais raro do Dreamcast. Trata-se de um run-and-gun frenético visto de cima, cujo nome veio emprestado de um dos golpes da Cammy. O genial é justamente o elenco de peso da desenvolvedora: além da própria Cammy, você controla o Charlie Nash (Street Fighter), a B.B. Hood (Darkstalkers), o Arthur (Ghosts ‘n Goblins) e mais alguns rostos conhecidos atirando em absolutamente tudo o que respira na tela.

Revisitar esses discos — dos que mudaram a indústria para sempre aos que ficaram esquecidos no fundo de uma gaveta —, é entender que o fim prematuro do Dreamcast foi apenas um detalhe comercial. Para quem esteve lá com aquele controle gigante na mão, o legado do aparelho continua girando no leitor até hoje.